domingo, 16 de janeiro de 2011

O que é ser homem hoje?

Incrível. Estamos num tempo em que surgiu a pergunta “O que é ser homem hoje?”.

Pensem no absurdo disso! É como perguntar “Qual a função de um fósforo?” ou “O que é uma escova de dente?”. Ou melhor, é como se fosse uma escova de dente se perguntando: “Como eu faço para ser uma escova de dente?”.
Pois é, os existencialistas estão cada vez mais certos. Tudo bem fazer um charme perguntando “O que querem as mulheres?” ou até mesmo “O que é uma mulher?" (coisa que já fiz aqui), mas jogar a pergunta para si mesmo é demais.
O fato é que esse homem “simprão”, mais tosco, sem refinamento, desses que não sabem nem o significado da palavra “subjetividade” ou “crise”, esse homem, bem, que homem é esse? A identidade masculina foi questionada e a piada é: nós mesmos não soubemos responder direito. Vieram várias respostas. Uns nem tentaram responder, viraram as costas, alisaram o cabelo com chapinha e hoje vivem felizes. Outros ficaram com a pergunta entalada e até hoje guaguejam. E outros arriscaram respostas com suas próprias vidas.

A resposta de Levni Yilmaz

Eu já vi quase todos os vídeos da série Tales of Mere Existence, do genial Levni Yilmaz. O mais recentes, publicado na semana passada, fala sobre o que é ser homem hoje em dia: “How to be a man?”.
Ele está certo. Antigamente era mais fácil, as identidades e as posições masculinas eram mais definidas. Hoje a coisa está tão confusa que surgiram vários manuais com dicas de como ser homem:


A resposta de Contardo Calligaris

Não está bem claro o significado da instrução “Seja homem!”. Se o papel de provedor já não nos é exclusivo, o que sobra? Provar a masculinidade trepando por 3 horas sem parar, fazendo musculação, luta, esportes mais próximos da morte?
Perde-se a virilidade quando se acostuma como a vida cotidiana que não tem quase nada de heróica ou aventureira? O que demanda mais destemor? Construir um império transnacional ou ter um filho e levá-lo para a escola todos os dias?



“Talvez os heróis “de uma peça só” (digamos assim) ainda prevaleçam, mas há claros sinais de que o ideal masculino da década que acaba é o do homem corroído ou, no mínimo, arranhado por seus próprios demônios internos.
Na televisão, por exemplo, a década começou com um chefão da máfia tendo que recorrer a uma psicoterapeuta (“Família Soprano”, HBO) e acabou com o terapeuta de “In Treatment” (HBO), que é verossímil (e adorável, aliás) justamente por ser tão perturbado quanto seus pacientes. Além disso, tanto o herói de “The Mentalist” (Warner) quanto o de “Lie To Me” (Fox) parecem dever suas aptidões extraordinárias às feridas de seu passado. O mesmo, provavelmente, vale para “House” (Universal). Hoje, já acho que as dúvidas, os conflitos psíquicos e as fraquezas atormentadas são o equivalente da ferida de Filoctetes, ou seja, quase o fundamento da eventual força do homem contemporâneo. É um progresso, não é?” –Contardo Calligaris



A resposta de Fabricio Carpinejar

Um escritor gaúcho feio igual ET com unhas pintadas e uma bela mulher ao lado. Ao lado do mestre Xico Sá, Carpinejar vive definindo o macho moderno, criando aforismos sobre mulheres, sexo, amor. Não sei ainda se é um desserviço ou se a coisa presta mesmo. Estou lendo Canalha e Mulher perdigueira para confirmar. Um trecho:
“Aquele cafajeste de outrora mudou, não é mais o tipo machista e intolerante. Esqueça os personagens de Jece Valadão. Há outro canalha mais perigoso em ação, uma mutação cultural: um canalha caseiro, que não tolera preconceito (aceita ser confundido com gay e entende o chamado como um elogio), que vai fundo no sofrimento para não repeti-lo, gentil dentro das expressões, que ama demasiado os filhos, que se veste com estilo, mas não se importa com o que os outros vão pensar, que encontra a autocrítica no humor, que se aproxima de uma mulher para roubar sua alma (porque o corpo é muito influenciável.” –Fabrício Carpinejar



A resposta de Machete

Talvez pela primeira hoje é possível incorporar traços do clássico machão, brincar de ser bruto na vida (do jeito que elas gostam na cama), justamente porque somos livres desse padrão. Dessa brutalidade lúdica podem surgir grandes qualidades, como precisão e impetuosidade.





Nenhum comentário:

Postar um comentário